sábado, 18 de junho de 2011

Entendendo a Inquisição VI: Verdades e Mentiras sobre a “Caça as Bruxas”.

bruxas-inquisicaoOlá Querido Leitor. Que a Paz de Nosso Senhor Jesus Cristo e o amor de Maria, Mão do Meu Senhor (Lc. 1,43) estejam convosco.

Dando continuidade a nossa série de artigos sobre a Inquisição, vamos procurar elucidar alguns mitos e lendas sobre a inquisição, relativa a temerária “Caça as Bruxas”.

Muitos associam a imagem da inquisição com a queima de bruxas pelas fogueiras. Alguns ainda mais ignorantes atribui esta pratica como iniciada pela inquisição. Bem a esses primeiros, recomendo a leitura do terceiro capítulo do livro do profeta Daniel e veremos que a prática de queimar pessoas vivas como punição de pecados ou de erros contra o estado era muito mais antiga que o próprio advento de Jesus Cristo.

Somente a partir do século XV, a Igreja começou a tratar as bruxas por um outro aspecto, não se preocupando com elas até então. O Concílio da Basiléia (1431-1439), difundiu um novo conceito da bruxaria.

G. Gunzburg fala de crença exagerada na ação do demônio como um fenômeno sociológico que tomou conta do povo, gerando pânico e consequências negativas. A teologia aceitou a crença popular de uma certa forma. Tanto do lado católico quanto do lado protestante, surgiram muitos escritos demonológicos, sendo escritos em grande quantidade até o século XVII.

A teologia sobre este assunto (demonologia) neste ponto era imperfeita. Sejam maléficas ou benéficas, as bruxas sempre atuavam sob o poder do demônio. Aceitava-se que era possível realizar pactos com o diabo para o malefício de outras pessoas, transferência da alma para um corpo de animal e coisas afins, faziam espalhar o pânico sobre o assunto com todas as consequências negativas.

São documentos da época o “Compendium maleficarum”, de Guazzo, 1608, “Ut magorum et maleficarum errores” (1436, Clode Tholosan); “Fornicarius”, do dominicano Johannes Nider (1437) e o manual de Azpilcueta, com 91 edições de 1549 a 1625. Em 1458, Nicholas Jequerius afirmou a existência da seita das bruxas, insistindo que seus poderes não eram fantásticos, mas reais.

Durante o Simpósio Vaticano (1998), Gustav Henningsen disse: “Não foi a Inquisição que iniciou a perseguição às bruxas, mas a justiça civil nos Alpes e na Croácia” (1360-1379)… A legalização à caça das bruxas sucumbiam primeiro os tribunais civis, e depois, pouco a pouco, teve a Igreja que adaptar-se a esta corrente (Atas, SV, p. 576).

Afirmou também que não há envolvimento da Inquisição com as bruxas até o século XV, sendo pura fantasia imaginar que milhares ou milhões de mulheres foram queimadas em fogueiras por toda a Europa. Páramo, inquisidor na Sicília, afirmava que: “não conheço queima de bruxas correspondente e esse tribunal”(Atas, SV, p. 577).

No que se refere à “caça as bruxas”, o historiador Agostino Borromeo, no mesmo Simpósio, afirmou que “os tribunais eclesiásticos foram muito mais brandos e indulgentes do que os tribunais civis”. “ Dos 125.000 processos de sua história, a Inquisição espanhola  condenou a morte 59 bruxas. Na Itália foram apenas 36 e em Portugal 4”.

E continuou: “Se somarmos a estes dados, não se chega nem a 100 casos, contra os 50.000 condenados às fogueiras, em sua maioria por tribunais civis, em cerca de 100.000 processos (eclesiásticos e civis) celebrados em toda a Europa durante a Idade Média (1000 anos aprox.!)”.

O manual elaborado pelo dominicano Nicolau Eymeric (injustamente criticado por uma série de TV veiculada a pouco tempo no canal History Channel, sendo até taxado como louco(sic.)), depois de 44 anos de experiência como inquisidor, não fala das bruxas, condenado apenas as mulheres que acreditavam poder voar durante a noite em cortejos a deusa Diana. E inclui o decreto do Papa João XXII (1326) contra diversas formas de culto ao demônio.

O pânico demonológico começou a diminuir na Europa a partir do século XVII. O inquisidor Alonso de Salazar Frias, por exemplo, percorreu a Espanha em 1610, quando a queima de bruxas voltou a ocorrer por influência da França, e realizou uma série de investigações, portando um “Edito da Graça”. Salazar abandonou o aspecto demonológico e começou a investigar cientificamente os casos de bruxaria. Em seu primeiro informe ao inquisidor geral ele disse: “Não houve bruxas até que se começou a tratar com elas”. Assim começaram a deixar de queimar-las na Espanha.

Gustav Henningsen, ainda durante o Simpósio Vaticano de 1998, examinou a relação de processos feita pelo Prof. Richard Kieckhefer e pode averiguar que os processos de bruxaria propriamente ditos foram divididos entre os tribunais civis (64%), tribunais episcopais (17%) e tribunais inquisitoriais (20%). É de notar que a maioria dos processos (64%) fora julgados pelas autoridades civis, estando longe da vista dos tribunais eclesiásticos (episcopais e inquisição). Abaixo, segue uma lista com os números apurados das sentenças por bruxaria, promulgadas pelo tribunal de inquisição, durante toda a Idade Moderna (Séculos XIV até o começo do século XX).

País

Número de Condenações

População

Irlanda 2 1 Milhão
Portugal 7 1 Milhão
Espanha 300 (?) 8,1 Milhões
Itália 1000(?) 13,1 Milhões
Holanda 200 1,5 Milhão
França 4000(?) 20 Milhões
Inglaterra / Escócia 1500 6,5 Milhões
Hungria 800 3 Milhões
Finlândia 115 360 Mil
Bélgica 500 1,3 Milhão
Islândia 22 50 mil
Suécia 356 800 mil
Checoslováquia 1000 200 mil
Áustria 1000 200 mil
Dinamarca / Noruega 1350 970 mil
Alemanha 25.000 16 milhões
Polônia / Lituânia 10.000 3,4 milhões
Suíça 300 1 Milhão
Lichtenstein 300 3 mil
Estônia / Rússia / Eslovênia 264 Não disponível

O total de condenações durante 5 séculos é de aproximadamente 48.016. Esse número nos faz chegar as seguintes conclusões:

  1. O número está excessivamente abaixo dos especulados por diversos escritores mal intencionados e vigaristas com Dan Brow e Rosa Maria Muraro em seu infame “Martelo das Bruxas”, onde afirmam que historiadores estimam milhões de mortes por bruxaria impostas pela inquisição.
  2. Na cidade do Rio de Janeiro, apenas em 2010, foram registrados 4.767 homicídios dolosos. Isso é mais que o triplo do número de condenações em 5 séculos que houve, por exemplo, na Inglaterra e na Escócia, sendo a população quase a mesma nos dois casos.
  3. A proporção do impacto populacional das condenações por bruxaria é ínfima se comprarmos com as 100.000.000 mortes atribuídas apenas a China comunista no século XX(considerando uma população de 1,9 Bilhões de chineses). A proporção é 0,081% para a primeira contra 5% da segunda.
  4. Não é possível sequer comprar a perseguição sofrida pelos cristãos nos países muçulmanos, comunistas e hindus com a inquisição.  No século XX foram 70 milhões de pessoas que perderam suas vidas apenas por serem cristãos.

Ainda hoje há registros de perseguição a bruxaria. Vejam aqui a matéria publicada pelo site Zenit.org em 27/06/2009.

Ficamos por aqui pessoal. Espero ter auxiliado mais uma vez a todos na elucidação de mais este episódio na história sempre Santa Igreja Católica Apostólica Romana. Até o próximo Post!! Alegre

 

Fontes:

AQUINO, Felipe Rinaldo Queiroz de, Para entender a Inquisição; 3ª Edição, Ed. Cléofas, Lorena, SP, 2010 – Páginas 119 a 123.
http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/rj/numero+de+vitimas+de+homicidios+dolosos+no+rio+em+2010+e+o+menor+desde+2000/n1596936821179.html
http://www.zenit.org/article-20937?l=portuguese
http://www.hawaii.edu/powerkills/

4 comentários:

  1. O que vc me diz sobre a perseguição aos judeus? Os chamados Cristãos-Novos, obrigdos pela Inquisição a se converter e a dar parte d seus bens à Igreja como tributo? Também é mentira? Porque o meu amigo, Emerich é descendente de um desses cristãos-novos da Europa, que teve a vida arruinada péla Usura da Igreja.

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  2. "História sempre SANTA da Igreja católica?" Que cegueira!

    Os capítulos mais sangrentos da história da Inquisição dizem respeito à generalizada perseguição empreendida contra as "feiticeiras" em vários pontos da Europa. O extermínio das pessoas - em sua vasta maioria mulheres - ligadas à bruxaria foi fortemente intensificado após a publicação do manual MALLEUS MALEFICARUM (O Martelo das Feiticeiras), escrito em 1487 pelos inquisidores alemãs Heinrich Kraemer (1430-1505) e James Sprenger (1435-1495). Os autores justificaram os conteúdos do livro a partir do principal pronunciamento PAPAL a respeito da feitiçaria, a bula SUMMIS DESIDERANTES AFFECTIBUS, de Inocêncio VIII (1432-1492), expedida em 5 de dezembro de 1484. O texto pontifício reconhece a existência das bruxas e CONCEDE PERMISSÃO AOS INQUISIDORES PARA LANÇAREM MÃO DE QUAISQUER MEIOS NECESSÁRIOS À REPRESSÃO. A bula também ameaça de excomunhão indivíduos interessados em impedir a ação dos inquisidores. O manual, inclusive, atingiu espantosa notoriedade, sendo reimpresso numerosas vezes durante os 200 anos seguintes [para felicidade do diabo!]. À época de sua publicação, a obra foi rejeitada pela Universidade de Colônia em razão dos princípios ANTIÉTICOS e outras inconsistências nela contidos. No entanto, os autores forjaram uma nota de aprovação da Universidade, anexada em posteriores edições.

    SZASZ, Thomas. A fabricação da loucura: um estudo comparativo entre a Inquisição e o movimento de saúde mental, p. 115.

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  3. Grimaude Gomes, o contexto histórico é este aqui:

    "Se a Inquisição Papal durante a Baixa Idade Média teve o objetivo de reprimir os dissidentes cristãos, na Espanha, durante o alvorecer da Idade Moderna, outro grupo foi o alvo principal da perseguição inquisitorial: OS JUDEUS.

    A expansão do comércio maritimo deu origem a uma classe média ávida de ascensão enconômica e social. Segundo a historiadora Anita Novinski, o confronto dessa nova burguesia cristã com a burguesia judaica:

    'foi explorado pelas facções do poder, principalmente a Igreja Católica, que procurava liderar uma intensiva propaganda antijudaica, responsabilizando os judeus por todos OS MALES QUE AFLIGIAM A NAÇÃO.' [NOVINSKY, A. A Inquisição, p. 24 apud Marcelo da Luz, 2011)

    Assim, ao longo do século XIV, várias restrições foram impostas aos judeus, os quais eram acusados de usurparem funções políticas de direito pertencentes aos cristãos. MANIFESTAÇÕES ANTISSEMITAS COMEÇAM A ACONTECER PELO PAÍS, INSUFLADAS PELO CLERO CATÓLICO [lobos travestidos de ovelhas], COM A CONSEQUENTE DESTRUIÇÃO DE MUITAS FLORESCENTES COMUNIDADES JUDAICAS. A mais grave dessas manifestações ocorreu em 1391, em Sevilha, onde 4 MIL JUDEUS FORAM CHACINADOS."

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  4. Ferozmente perseguidos, muitos judeus encontraram na conversão ao catolicismo A ÚNICA SOLUÇÃO DE SOBREVIVÊNCIA NA ESPANHA naquela época. Os judeus batizados foram denominados 'judeus conversos', 'cristãos novos' ou 'marranos', passando a conviver lado a lado com a remanescente minoria judaica e a larga porção de cristãos velhos. Os conversos cresceram em número, prosperaram e ocuparam postos de relevo na sociedade espanhola. Contudo, crises político-econômicas flagelaram os reinos espanhóis durante o século XV e os judeus conversos transformam-se em vítimas de VIOLENTAS ONDAS DE REPRESSÃO, sob a acusação de terem se infiltrado na Igreja e na sociedade a fim de contaminá-las com aquilo que chamavam 'heresia judaizante'. A esse respeito, escreve o historiador estadunidense Edward Peters:

    'A partir da metade do século XV, o antissemitismo religioso se converteu em antissemitismo étnico, enxergando pouca diferença entre judeus e conversos, exceto pelo fato de que os conversos foram considerados piores do que os judeus porque, aparentemente cristãos, eles adquiriram privilégios e posições que eram negadas aos judeus.'

    Os monarcas Fernando II (1452-1516) e Isabel I (1451-1504), também conhecidos sob o cognome de "Reis Católicos" ascenderam ao trono de Aragão e Castela em 1474, e abriram as portas aos clérigos extremistas. Os monarcas precisavam do apoio da Igreja Católica e da burguesia [coluio podre!] a fim de consolidar seu governo. Segundo a historiadora Anita Novinski:

    'Em troca desse apoio, os monarcas introduziram uma série de medidas restritivas contra os conversos e judeus. Atrás desse fato encontram-se os vazios cofres do Tesouro e a ambição de Fernando de expulsar os mouros, ainda instalados em Granada, para o que não tinha meios financeiros.'

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