quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Entendendo a Inquisição III – Heresias que levaram a criação da Inquisição

Cataros

Bem vindo caro leitor!

Dando continuidade a nossa série de artigos sobre um melhor entendimento da inquisição, veremos quais foram as heresias e seitas que fomentaram a criação dos Tribunais Eclesiásticos e mais tarde o Tribunal do Santo Oficio.

Como abordado no artigo anterior, a realidade social e política do mundo durante a Idade Média era completamente diferente da que existe hoje. Deus estava no centro da vida das pessoas (teocentrismo) e não o homem (antropocentrismo). Esta realidade é muito distante e quase incompreensível para o homem moderno, dominado pelo Relativismo.

A fé era o bem mais precioso que a população possuía em um tempo difícil, duro, onde a sobrevivência era galgada com muitos esforços diários. Por meio dela, todos se tornavam de certa maneira iguais, sejam ricos e pobres, nobres e plebeus. Dentro da Igreja todos eram fieis sem quaisquer distinções.

É função da Igreja cuidar da pureza e da fé das pessoas que dela participam. Nos tempos medievais, isto era feito através da ação dos bispos e suas dioceses e com penas apenas espirituais. Todavia o surgimento de seitas perniciosas, fanáticas, subversivas e revolucionárias como os cátaros ou albigenses mostrou que tais métodos eram insuficientes para manter a ordem social e religiosa.

De acordo com Santo Agostinho, um herege não alguém simples e sem expressão; ao Contrário, é alguém inteligente, muitas vezes culto, mas que lhe falta humildade. Podemos ver que muitos homens de prestígio na Igreja enveredaram pelo caminho herético, tentando resolver os problemas da Igreja fora dela, sem lhe prestar o devido respeito e obediência. Esse comportamento gerou terríveis movimentos no fim do século XII. Podemos citar nomes como Pedro Valdo (os valdenses), Berengário de Taurs, Henrique de Lausanne, Arnaldo de Bréscia e muitos outros que agitaram a sociedade, arrastando multidões a suas práticas sofistas e sismáticas.

É sabido que dentro da Igreja há homens e mulheres suscetíveis e ao erro. Não podemos e não vamos negar que algumas pessoas, até mesmo alguns papas e bispos, cometeram faltas graves e promoveram grande desconforto diante a sociedade da época. Porem, não podemos esquecer que a Igreja é instituída por Cristo (Mt 16,18) e por isso ela é Santa e perfeita em todos seus ensinamentos (doutrina) e em sua moral. Qualquer tentativa de rebelar-se contra a instituição é uma rebelião contra o próprio fundador, que é Cristo.

Existem exemplos de homens e mulheres grandiosas que conseguiram grandes transformações na Igreja sem precisar rebelar-se contra ela. É o caso de São Francisco de Assis, São Domingos Gusmão, São Bento, Santa Catarina de Senna e muitos e muitos santos e santas de Deus que por sua humildade e vida dedicada à santidade são lembrados e venerados até nossos dias.

Vejamos agora quais foram as heresias que motivaram a instauração do Tribunal de Inquisição:

· Cátaros ou Albigenses

O catarismo (do grego katharós, puro) foi um movimento que descendeu diretamente do maniqueísmo. Este movimento foi iniciado na Pérsia (fundado por Mani ou Menes, †276 DC, da Pérsia), ainda durante o Império Romano, que professavam uma doutrina dualística. Os maniqueus eram tão prejudiciais a ordem civil e religiosa que me 260 DC, o imperador Diocleciano perseguiu e procurou eliminá-los por todos os meios possíveis. Este movimento não foi completamente extinto.

O catarismo que dominou a Europa a partir do século XI acreditava que o mundo houvesse dois princípios eternos e opostos, o do bem e do mal. Os Iranianos os chamavam de Hormuz e Ahriman. As coisas materiais eram consideradas obra do Princípio do mal (simbolizado pelas trevas). As coisas espirituais eram obras do Princípio do bem (simbolizado pela luz) e o mundo é um campo de batalha onde se enfrentam esses dois poderes. De um lado o Pai Celeste em três pessoas, senhor dos céus e dos anjos. De outro, o Criador ou demiurgo, deus do mal e senhor de tudo que existe na terra. Assim, a matéria era considerada má e as coisas espirituais eram puras e boas.

Satã (ou demiurgo) criou a terra do nada e quis povoar-la, criando criaturas do barro e aprisionou espíritos puros dentro destas cascas de matéria imperfeita (semelhanças com o espiritismo não são meras coincidências...). Cada vez que uma criança nasce, o espírito mal prende no seu corpo uma alma de um anjo caído.

Segundo a doutrina cátara, narrada por Daniel Rops, para libertar os anjos acorrentados na terra, o deus bom enviou seu mensageiro, Jesus, que teria sido o único anjo fiel que aceitou a missão (mais uma vez, qualquer semelhança com o espiritismo não é mera coincidência...). Este não poderia ter contato com nenhuma matéria, tomando para si um corpo apenas aparente (docentismo) e só aparentemente viveu como homem e assim morreu.

Antes de Jesus, todos estavam nas trevas do deus mal, Javé. Jesus teria, então, ensinado a todos a renunciar a terra má, à carne, à vida, a fim de voltar a ser um espírito puro e regressar a pátria perdida (Qualquer semelhança com religiões holísticas, tais como messiânica e Seicho-No-Iê não é mera coincidência...). Assim, no fim dos tempos, quando todas as criaturas, incluindo satã, estiverem libertos do mal da matéria, tudo o que era impuro desaparecerá e haverá um céu para todos. Não existe o Inferno. Todos se salvarão de certo modo em reencarnações purificadoras (Qualquer semelhança com espiritismo, hinduísmo, budismo, new wiccas e etc. não é mera coincidência...).

Tinham a idéia de que a Igreja era um local para pessoas seletas, puras. Estas pessoas deveriam praticar o desprendimento total de todos os bens da terra, não se casar, considerar toda mulher grávida como possuidora do demônio e muitas vezes matar-las. Alguns viviam como os faquires hindus, insensíveis a tudo.

Só os perfeitos (puros ou cátaros) estavam certos da salvação, pois julgavam estar livres da “prisão da matéria”. Alguns tinham o desejo tão grande de chegar logo ao “céu” que praticavam a “Endura”, o suicídio sagrado. Este suicídio era praticado por envenenamento, jejum ilimitado, ingestão de vidro moído, abertura das veias durante o banho e até a morte por pneumonia adquirida de propósito. Incentivavam a “Endura”, por ser difícil perseverar na “perfeição” que pregavam, bem como as praticas da eutanásia nos moribundos. “É de crer que a ‘endura’ vitimou mais cátaros do que toda a atividade inquisitorial.” (W. Neuss, Apud Bernard J., p 12).

Os iniciados passavam por uma espécie de sacramento cátaro, o “consolamentum”. Este era ministrado com a imposição de mãos e o trechos dos Evangelhos sobre a cabeça do candidato. Era um passo irreversível, (qualquer semelhança com os adventistas do sétimo dia e sua tresloucada Ellen White não é mera coincidência) sendo muitas vezes ministrado apenas no leito de morte pela dificuldade de se viver as “conseqüências” deste ritual, pela crença de que deus descia sobre a pessoa e destruía as aparências carnais.

Os hereges imitavam as Igrejas, a fim de superar-la. Estavam divididos em dioceses , “igrejas”, dirigidos por bispos cátaros, reuniam-se em concílios. Os crentes eram dirigidos pelos diáconos, como se fossem párocos católicos. Rejeitavam a Trindade, a Encarnação de Nosso Senhor Jesus Cristo, Eucaristia, Batismo, Cruz e demais sacramentos e sinais. Para eles só valia a oração, em especial o Pai-Nosso (Qualquer semelhança com o protestantismo não é mera coincidência).

Também era vetado o casamento prolongado, pois este prolongava a ação do deus mal aqui na terra, o serviço militar, o trabalho manual, rejeitavam a autoridade governamental (anarquistas), a propriedade privada, queimavam fazendas e propriedades particulares, combatiam a hierarquia da Igreja e do Estado.

Sem dúvida esta seita era uma ameaça pujante para a Igreja e para a sociedade da época. Vejamos o que alguns historiadores e filósofos dizem sobre estas seitas:

Henry Charles Lea, historiador protestante:
“Essa era a crença cuja rápida difusão encheu a Igreja de um terror plenamente justificado. Por mais horror que nos possa inspirar os meios empregados para combater-la, por mais piedade que devemos sentir por aqueles que morreram vítimas de suas convicções, reconhecendo sem hesitar que, nas circunstâncias, a causa da ortodoxia era a da civilização e do progresso. Se o catarismo se tornasse dominante, ou pelo menos igual ao catolicismo, não há dúvida de que sua influência teria sido desastrosa.”

Jules Michelet (1798-1874), francês protestante de origem huguenot:

“Os albigenses (cátaros da região de Albi na França) não eram sectários isolados, mas uma igreja inteira, que se formava contra a Igreja. Em toda parte onde eram senhores destruíam e queimavam as cruzes, as imagens e as relíquias dos santos e maltratavam o clero” (Histoire de France, Apud Cauly, 1914).

· Gnosticismo

O gnosticismo filosófico-religioso interpretava o Cosmos como emanação de Deus através de uma degradação progressiva até terminar em matéria pura (Panteísmo). De Deus emanaria seres (eones) num sistema de ondas concêntricas, cada vez mais distanciadas do bem e próximas ao mal. O homem seria um elemento divino que, em conseqüência de um acontecimento trágico, teria sido condenado a ser preso na matéria (corpo) e viver na Terra.

O deus mal (demiurgo) é para eles um deus de nível inferior, criado pelo Princípio, bom, mas que se rebelou e se tornou aproximado e intrigante, principio do mal, causa do desastre cósmico, e seu criador. Passou depois a significar mago, encantador, inimigo de Deus.

De acordo com essa doutrina, as almas dos homens já existiam em um universo de luz e paz (Plenoma). Mas houve uma “tragédia” – algo como uma revolta – e assim esses espíritos foram castigados e aprisionados em corpos humanos, como em uma cadeia, pelo deus demiurgo, e que os impede de voltar para seu estado inicial (Provavelmente você já ouviu algum médium espírita falando algo parecido a você. Não é mera coincidência).

Esta libertação é possível apenas de um conhecimento especial e secreto (gnose em grego), junto com práticas mágicas (esotéricas) sobre Deus e a vida, revelados aos “iniciados”, e que dariam condições a eles de se salvarem mediante seus próprios esforços com tais sabedorias ocultas e esotéricas (ocultismo).

· Os Valdenses

Pedro Valdo († 1185) era um homem analfabeto, mas honesto e fervoroso. Era um comerciante rico de Lyon, França, que teve contato com Sagrada Escritura, pela qual se apaixonou em 1173. Certo dia, dizendo-se tomado por uma inspiração começou a pregar em desacordo e contra a igreja. Com dois amigos padres traduziu a Bíblia para a língua do povo. Pedro vendeu todos os bens, deu aos pobres, abandonou sua esposa, consagrou-se a Cristo, mas sem nenhum compromisso com a Igreja.

Vestido como São João Batista, saiu a pregar contra o clero e suas riquezas. Os seus seguidores chamavam-se de “Pobres de Lyon”. Eram esses os valdenses, que viviam em bando de homens e mulheres, praticando promiscuidade.

Desde 1173 pretendida viver a vida de Cristo e dos Apóstolos, e faziam propaganda ativa na França, Áustria e Alemanha. Desprezavam a autoridade da Igreja, insurgindo-se contra a justiça secular, as guerras e as Cruzadas. O arcebispo de Lyon, então, proibiu Pedro Valdo e seus seguidores de pregar o Evangelho. Pedro Valdo, então, rompeu em definitivo com a Igreja definitivamente e passou a ensinar que todo fiel era depositário do Espírito Santo, e cada um podia interpretar livremente as Escrituras, sem a necessidade da Igreja. Esse erro era muito comum na época e acabou aflorando mais tarde com João Huss, Wicleff e Lutero. Acabaram rejeitando a Eucaristia, a Missa, só ficando com o Pai Nosso. Este movimento foi o precursor do protestantismo.

· Heresia de Berengário de Tours

Berengário era professor de teologia em Tours, por volta do ano 1050, era cônego piedoso da vida austera brilhante teólogo. Já fazia uso da razão na teologia, mas enganou-se sobre a Eucaristia. Ensinava que o pão e o vinho após a Consagração eram apenas símbolos e não presença real de Cristo. Sua heresia foi condenada pelo Concílio do Latrão em 1059.

· Irmãos do Livre Espírito

Amaury de Bène era professor teologia na universidade de Paris, no fim do século XII, e ensinava que, como Deus é tudo, cada homem participa da divindade de Cristo e é a encarnação viva do Espírito Santo. Não era preciso os Sacramentos, a autoridade e as leis morais, afinal, sendo você Deus ou parte dele, não poderia pecar. Tudo lhes era permitido porque o Espírito Santo supria tudo. A heresia grassou na região da Suíça e do Alto Reno, tornando-se ativos na Suábia, espalhando-se pela Alemanha e chegando a Holanda.

Como os valdenses, eles escreviam livros religiosos heréticos na língua do povo. Eram panteístas e criam que tudo emana de Deus e para Ele tudo irá retornar. Até mesmo um rato era tão divino quanto o homem e também satanás, era visto como uma emanação e manifestação de Deus. Repudiavam os sacramentos da Igreja. De acordo com Bène, “Como a alma assim reverte a Deus após a morte, não há nem purgatório, nem inferno e todo culto externo é inútil”. Firam amplamente acusados de culto ao demônio, práticas satânicas e orgias sexuais. Seus seguidores receberam o nome de “Irmãos do Livre Espírito” e a heresia foi condenada pelo Papa inocência III.

· Heresia de Pedro de Bruys

Pedro de Bruys era um padre instruído, bom orador, de vida pura, mas se tornou um fanático que arrastava as multidões. Ensinava contra o batismo de criança e que era preciso rebatizar os adultos, que só houve uma vez a transubstanciação do pão e do vinho e foi durante a Santa Ceia, não mais. Ensinava também que os defuntos não se beneficiam com nossas orações, esmolas e indulgências e que as igrejas, cruzes e imagens não tem valor. Isto era a negação cabal do cristianismo, a ser aflorada mais adiante com o protestantismo. Alem de tudo, Pedro de Bruys fazia ataques ao clero e à sua autoridade. São Bernardo, Pedro o Venerável e Abelardo o tinham como o mais perigoso dos hereges da época. Acabou sendo morto na fogueira, pelas mãos do povo e sem o consentimento da Igreja, após ser esquartejado, na Sexta-Feira Santa de 1124, por ter neste dia assado carne em uma fogueira feita de cruzes, afrontando a fé do povo. Henrique de Lausanne, seu seguidor, continuou com suas heresias, usava apenas um simples burel, dormia no chão e andava descalço. Acabou sendo preso.

· Heresia de Arnaldo de Bréscia

Cônego piedoso que encantava seus ouvintes, com costumes puros e gosto pela prática da pobreza. Revoltou-se contra a riquesa da Igreja e desejava eliminar todas as suas propriedades, o que arruinaria a Igreja. Acabou por arrastar as multidões em um movimento pela pobreza. Empolgou os romanos, envolveu-se na política e se tornou líder de uma facção contra o Papa. Acabou morto pelo Imperador Frederico I, o Barba Roxa.

***

Vimos que a quantidade de seitas e heresias que havia na idade média era consideravelmente numerosa. Todas agiam contra a ordem pública, moral e religiosa da época. Por diversas vezes medidas extremas foram tomadas contra os hereges para garantir a paz e a ordem pública. Veremos no próximo artigo como eram o processo jurídico e como a instituição do tribunal inquisitorial colocou ordem e justiça num tempo em que a espada era a lei.

Podemos ver também claramente que muitos dos movimentos protestantes, espiritualistas, holísticos e new ages carregam em sua essência a deturpação herética do passado das heresias que de certa forma, perpetuaram seus males, cegando e afastando o povo de Deus do caminho da retidão e da videira verdadeira que é sua Igreja.

Ficamos por aqui e até o próximo artigo!

Paz e bem sem nunca olhar a quem.

 

Fonte: Aquino, Felipe Reinaldo Queiroz de – Para Entender a Inquisição – Editora Cléofas – Lorena, SP – 3a Edição 2010

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