quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Entendendo a Inquisição II: A Vida Politica e Social na Idade Média.

idade-media

Olá queridos leitores! Salve Maria Mãe da Igreja e Nossa!! (Lc 1,43).

Dando continuidade a nossa série de artigos que buscam entender e elucidar o que de fato foi a Santa Inquisição, apresentaremos um “raio-x” da realidade politica e social do período da que compreenderam a Idade Média Ascendente (476-1054 DC) e a Alta Idade Média (1054-1350 DC) e a Baixa Idade Média (1350-1453).

Antes de começarmos nosso artigo, gostaria de lembrar a todos que tudo que escrevi e escreverei está baseado em fontes históricas idôneas e verossímeis, que serão referenciadas em seu momento propício. Não considero materiais de literatura fantástica e/ou ficcional, como os livros Código da Vince e Anjos e Demônios do escritor Dan Brown. Também não estaremos considerando boatos e fantasias como a tal história da “Papisa Joana” ou coisas assim. tais mitos e inverdades aberrativas serão desconsideradas.

Tentar entender o que foi a inquisição, seus modus operantes, sua necessidade e sua validade social e jurídica sem estar inserido no contexto da época é o mesmo que, por exemplo, criticar o modo de vestir-se nos anos 70 e 80, taxando de “cafona”, ou seja, o que hoje nos parece ridículo no ponto de vista estético, a vinte ou trinta anos atrás era absolutamente normal e bem aceito. Agora, transporte esse pequeno exemplo de vinte ou trinta anos passados para oitocentos, novecentos ou mil anos atrás. As diferenças culturais e sociais que nos separam desta época é abissal!

Como vimos no artigo anterior. A Igreja foi peça fundamental para que a sociedade européia fosse estabelecida, visto a gama de conhecimento dos mais diversos campos difundidos com muita coragem e zelo pelos monges beneditinos, mais a frente os franciscanos e dominicanos. Todavia, este processo não foi imediato. Foram necessário pelo menos seis séculos de muitas lutas, perseverança e até mesmo sangue derramado para que muitos dos costumes bárbaros fossem renegados e a cristandade pudesse finalmente florescer em sua plenitude.

Estamos falando neste momento de um período de grandes mudanças na vida européia. Desde 476 DC, com a queda do Império Romano até 1453 DC, data da queda de Constantinopla pelos turcos otomanos, liderados por Mehmed II al Faith (1432-1481), dando assim fim a Idade Média e abrindo as portas à Idade Moderna. Durante este período, uma grande tentativa de se criar uma verdadeira civilização de Deus com base nos escritos de Santo Agostinho de nome De Civitas Dei (A Cidade de Deus).

Este trabalho que visava principalmente a criação de uma espécie de confederação de nações em função de uma mesma lei e ordem. O precursor desta vontade foi o imperador godo Teodorico I (454-526 DC), sucessor de Odoacro (434-493), teve a iniciativa de unificar as diversas nações bárbaras sob a bandeira da fé cristã, que perdurou por toda a Idade Média Ascendente.

Neste período, um verdadeiro “mosaico de nações bárbaras” começaram a se estabelecer. Vale aqui um breve comentário que iremos abordar mais a frente, sobre a dizimação da rica cultura romana, que era devastada não por vontade ou imposição da Igreja, mas pela vontade dos conquistadores bárbaros. De acordo com os costumes da época.

Aos poucos, foi se estabelecendo nações poderosas, com suas rizes fincadas profundamente no evangelho e nos ensinos da Igreja. Um belo exemplo disto foi Clovis (466-511), rei merovíngio dos francos, foi o primeiro a unificar todas as tribos francas em torno da fé cristã católica e assim fundar a “filha mais velha da Igreja”, a nação francesa. Seguindo-se, muitos outros reis convertiam-se não pela força ou imposição externa, mas pelo fascínio cultural, espiritual e moral que as leis e costumes da Igreja de Cristo oferecia a todos. Pela primeira vez na história da humanidade uma comunidade internacional nascia tendo a Igreja e sua doutrina como sustentáculo. Nascia assim a Cristandade e as premissas de uma lei internacional unificada.

Por este motivo, é impossível separarmos a Igreja do Estado nesta época. Ambos estavam intrinsicamente ligados e qualquer ofensa a um implicava na reação do outro. Veremos agora como esta realidade se refletia na vida social, política e jurídica das pessoas nesse período. Vejamos agora distintamente esses efeitos:

  • Realidade Social

Feuerbach disse: “O homem não era o centro das coisas, mas Deus.”. Pense no sentimento que você teria ao ver um homem, seja presencialmente ou pela TV , estuprando uma senhora de idade ou uma criança. De certo, um grande sentimento de revolta e justiça encheria seu coração. Alguns mais exaltados pode até querer a morte imediata daquele agressor. Por mais absurdo que pareça a nós hoje, este era exatamente o mesmo sentimento que um cidadão vivente na Europa medieval teria se alguém começasse a distorcer os ensinos da Igreja, propagar heresias e praticar a apostasia(afastamento deliberado das doutrinas e crenças que antes eram mantidas e defendidas com firmeza).

A vida social daquela época girava única e exclusivamente em função de Deus. Sendo a Igreja fiel depositaria da fé e dos ensinos de Deus, por meio de seu Magistério e Tradição (ITm 1,9; 2,1). Nada mais natural a necessidade de defender com “unhas e dentes” tudo aquilo que sustentava a sociedade. Com base neste pensamento e idéia vívida das pessoas, é fácil entendermos os motivos pelos quais houveram as Cruzadas e a Inquisição, movidas por fé comprometida e profunda no Sagrado.

A Igreja propiciava cultura, progresso, proteção, esperança, conduta moral e vida. Toda a Idade Média era repleta de padres, bispos, frades, freiras e as pessoas viviam sob o amparo direto e indireto desses homens e mulheres, cuja falta iria propiciar um vácuo, desespero e desamparo e um mundo muito diferente do que temos hoje. Esta herança pode ser vista em larga escala no nosso mundo atual. Basta ir a Europa e ver as ruas, as catedrais, as artes, as músicas, as universidades, os castelos, as praças, etc.

Este amor profundo e sincero impelia jovens e moças a largarem suas famílias para viver a vida religiosa dentro dos mosteiros, conventos, alistarem-se nas Ordens Religiosas Militares e Sagradas Cavalarias. Baseando-se nesta realidade, é impróprio dizer, por exemplo, que a principal motivação para o ingresso em companhias que iriam para as guerras na terra santa ou o desejo participar de um tribunal inquisicional eram dinheiro, riquezas, expropriações e conquista de novas terras. Não podemos negar que este sentimento era grande, porem com a mais absoluta certeza o sentimento de manutenção da fé e da Igreja eram infinitamente superiores nos corações dos viventes naqueles dias.

Segundo Lewis Mumnford, “A Igreja dava a todas as comunidades, pequenas e grandes, um propósito comum.”(Aquino, p. 40). Assim, atacar a religião estabelecida era atacar toda a sociedade e a ordem pública. Qualquer heresia era capaz de não só abalar a fé do povo, mas também a sociedade como um todo, visto a dependência da mesma quanto a Igreja. Portanto, um herege era considerado muito mais que um simples locutor de infâmias, como é o nosso pensamento de hoje, mas um revolucionário e traidor.

  • Realidade Politica

As frases “cujus regio, hujus religio”(a religião do rei é a do seu povo) e “Une Foi, une Loi, une Roi” (Uma Fé, uma lei, um Rei), muito populares naquele tempo, descrevem muito bem a mentalidade politica da população medieval no tocante a politica. Vemos em diversas gravuras cerimônias suntuosas de coroação onde o rei recebe seu título do representante de Deus junto àquela comunidade e em alguns casos, com a presença do Sumo Pontífice. Desde Carlos Magno (+814), a sagração dá ao imperador o caráter de “delegado de Deus na terra” e sem esta, a coroa não tem valor para o povo. Isto valeu até Napoleão Bonaparte no século XIX. Cargos políticos e até mesmo eclesiásticos eram distribuídos em comum acordo com a Igreja e a autoridade local.

A Cristandade unificou a Europa, estabelecendo uma espécie de “ONU cristã medieval”. Decisões de diversos níveis eram sempre levadas a mediação da Igreja, que pronunciava-se e quase sempre sua decisão era acatada. Parafraseando Santo Irineu de Lyon, que viveu por volta do século II, “Roma falou a contenda terminou”. Este comportamento perdurou por muitos e muitos anos após a Idade Média. Basta dizer que a primeira  coisa feita por Pedro Alvares Cabral ao desembarcar em nosso litoral foi celebrar uma missa. Missionários jesuítas e franciscanos eram enviados aos montes para o Novo Mundo (América) para propagar a fé cristã e assim estabelecer o Estado de direito. Sem religião, não havia o estado.

Essa interação entre a Igreja e o Estado também produziu seus males. Estes males tem as mesmas origens de nossos males atuais e os da antiguidade. Onde há o homem, há a tendência e a prática do pecado. Nomeações impróprias a cargos eclesiásticos, abuso de poder por parte de alguns filhos da Igreja, expropriações indevidas dentro outros abusos não podem e não serão ignorados. Entretanto é bom lembrar que mesmo em nossos dias, atos ainda mais hediondos e perversos tem acontecido: as duas piores guerras da história aconteceram no século XX, regimes como o nazismo e o comunismo espalharam a morte em massa como nunca se houve na história humana, etc.

 

Ficamos por aqui. Espero ter conseguido com este artigo mostrar o modo de vida e o pensamento do homem medieval e principalmente as suas diferenças básicas em relação ao nosso. Esperamos contar com sua colaboração enviando comentários e colocações pertinentes ao tema.

Para encerrar, vejamos o que nos relata o Prof. Léo Moulin, que durante cinquenta anos foi docente da Universidade Maçônica de Bruxelas, criada para contrapor a Universidade Católica de Louvain, de família gnóstica, anticlerical, voltada para o Socialismo, falava de maneira, segundo ele, agnóstica, respondendo em entrevista ao jornalista italiano Vittorino Messori, quando fez uma pequena síntese do que foi para a humanidade a dita “Idade das Trevas”:

“O século XIII, vértice da sociedade medieval, é um dos pontos mais altos e luminosos da história do Ocidente ou mesmo da humanidade. Em poucos decênios tivemos Giotto, Dante, Tomás de Aquino, mil catedrais…”

“Eis um breve e incompleto elenco das invenções tecnológicas (obras quase todas de monges beneditinos) do homem medieval, que, como diz a lenda, vivia na ignorância e na penitência, apenas à espera do fim do mundo: o moinho de água, a serra hidráulica, a pólvora negra (Trazida do oriente pelo monge franciscano Roger Bacon), o relógio mecânico, o arado, a relha, o timão, a roda, o jugo para o cavalo, o canal com eclusas e portas, a canga múltipla para os bois, a máquina para enovelar a seda, o guindaste, a dobadoura, o tear, o cabrestante complexo, a bússola magnética, os óculos e lentes de aumento. Acrescente a isso a imprensa, o ferro fundido, utilização do carvão fóssil, a química dos ácidos e bases, etc. (Estes últimos já no fim da idade média e durante a idade moderna). Esse impulso ao conhecimento científico e tecnológico continuou nos séculos seguintes: no início do século XVII a Europa contava 108 Universidades, enquanto o resto do mundo não havia uma só… Isto põe um problema para o historiador. Por que é que o desenvolvimento ocorreu somente em área cristã? Não há explicação senão a que já expus em livros dedicados a questão: há na mensagem cristã alguma coisa que leva os germens do desenvolvimento e do progresso. A antropologia da Bíblia exalta o homem e põe no centro do universo. Além disto, pregando igualmente, ela cria uma sociedade livre, sem barreiras sacrais ou de castas; não há, pois, como se surpreender se, alimentando por tal mensagem, o homem europeu conquistou o mundo… Por que as suas naves lhe permitiam dominar os mares? Por que ele, e ele só, sentiu necessidade de expandir-se sobre a terra inteira, enquanto a África, a Ásia, a América pré-colombiana permaneciam imóveis nos seus confins? Sem esta nossa maravilhosa Europa, o mundo, como conhecemos, não existiria, sem as raízes cristãs e sem os seus monges.”

 

Fontes:

  • Aquino, Prof. Felipe – Para Entender a Inquisição – Editora Cléofas, 2009 / 3a Edição.
  • http://www.wikipedia.org

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